Artigo · Autocontrole e dependências

O contrato de Ulisses: do celular ao crack, por que amarrar-se ao mastro é uma decisão inteligente

Dr. Igor Ferreira27 set 20268 min de leitura
Pintura Ulisses e as Sereias, de John William Waterhouse (1891): Ulisses amarrado ao mastro do barco enquanto sereias aladas voam ao redor e os remadores seguem remando.
Pintura: John William Waterhouse, Ulisses e as Sereias, 1891. Domínio público.
Texto educativo para quem quer entender por que a força de vontade nem sempre basta, seja no celular, nas apostas, no álcool ou nas drogas. Não é orientação de conduta individual, e nada aqui deve mudar sozinho o que você já combinou com quem te acompanha.

O filme A Odisseia, de Christopher Nolan, levou de volta aos cinemas em 2026 uma das cenas mais antigas sobre autocontrole. Ulisses sabe que vai passar pela ilha das sereias, sabe que o canto delas enlouquece quem escuta e sabe, principalmente, que não vai resistir. Então ele não tenta resistir. Ele pede para ser amarrado.

“Amarrem-me de pé, com um laço tão firme que eu não consiga me soltar de jeito nenhum, e prendam as pontas da corda ao próprio mastro. Se eu implorar e suplicar que me soltem, amarrem-me ainda mais forte.”

Homero, Odisseia, canto XII. Tradução livre a partir da versão em inglês de Samuel Butler (1900), em domínio público.

Ulisses não confiou na força de vontade. Confiou na corda. E essa escolha, feita há quase três mil anos, continua sendo uma das estratégias mais inteligentes que a psicologia conhece.

O que Ulisses entendeu antes da psicologia

Existe uma diferença entre quem você é quando decide e quem você é quando a tentação chega. Com a cabeça fria, é fácil saber que vale mais dormir do que rolar a tela até as duas da manhã. No momento quente, o raciocínio muda de lado.

A psicologia chama de pré-compromisso a estratégia de tomar a decisão antes, no estado frio, e criar um obstáculo que proteja essa decisão no estado quente. O filósofo Jon Elster usou justamente a cena das sereias como exemplo central do livro Ulysses and the Sirens (1979), sobre as formas que encontramos de nos proteger de nós mesmos.

O detalhe mais sofisticado da cena é a segunda ordem de Ulisses: se ele pedir para ser solto, os companheiros devem apertar ainda mais. Ele sabia que, lá na frente, ia mudar de ideia, e deixou combinado que essa mudança não valeria.

E se o canto vier do bolso?

Um estudo publicado em 2025 na revista PNAS Nexus testou uma versão moderna da corda. Os pesquisadores pediram a 467 adultos dos Estados Unidos e do Canadá que instalassem um aplicativo que bloqueava toda a internet do celular por duas semanas. Ligações e mensagens de texto continuavam funcionando, e o computador também.

Segundo os autores, o bloqueio melhorou a saúde mental, o bem-estar e a atenção sustentada, esta medida por um teste objetivo, não só pela impressão dos participantes. Cerca de 9 em cada 10 participantes melhoraram em pelo menos um desses três pontos. Parte do efeito parece ter vindo do uso do tempo: sem a internet no bolso, as pessoas passaram mais tempo com outras pessoas, se exercitando e ao ar livre.

A corda também escorrega

O mesmo estudo traz um dado menos celebrado e igualmente importante. Dos 467 que se comprometeram com o bloqueio, só 119, cerca de 1 em cada 4, mantiveram o aplicativo ativo em pelo menos 10 dos 14 dias. A maioria afrouxou a corda no meio do caminho.

Isso não diminui o resultado. Mostra que o pré-compromisso funciona quando é difícil de desfazer, e que a corda mais bonita do mundo não adianta se o próprio Ulisses guarda a faca. O estudo também tem limites: durou duas semanas, envolveu voluntários e mede médias de grupo, não o que vai acontecer com cada pessoa.

Nas dependências, a sereia tem endereço

Com o crack, a cocaína, o álcool ou as apostas, o canto das sereias ganha nome técnico: gatilho. É tudo aquilo que o cérebro aprendeu a associar ao uso e que, sozinho, já desperta a vontade. Costumam ser pessoas, lugares, trajetos, horários, objetos, dinheiro na mão e emoções como raiva, tristeza, solidão e cansaço. Até a alegria de uma comemoração pode virar gatilho.

Esse efeito aparece em exame de imagem. Num estudo publicado em 1999 no American Journal of Psychiatry, 14 homens em abstinência de cocaína assistiram a um vídeo com cenas de uso. Eles sentiram fissura e mostraram ativação da amígdala e do cíngulo anterior, regiões ligadas à emoção e à motivação. Em quem nunca tinha usado cocaína, o mesmo vídeo não provocou esse padrão. O canto só seduz quem aprendeu a música.

Há um detalhe ainda mais importante para quem está parando. Um estudo de 2016 na JAMA Psychiatry acompanhou 76 pessoas com dependência de cocaína em diferentes tempos sem usar. A vontade relatada caía com o tempo. Já a resposta do cérebro às imagens ligadas à droga, medida por eletroencefalograma, foi maior com 1 e com 6 meses de abstinência do que com 2 dias, 1 semana ou 1 ano. Os autores sugerem que o período entre o primeiro e o sexto mês é de grande vulnerabilidade, justamente quando a pessoa pode achar que o perigo já passou. A corda precisa durar meses, não dias.

Por isso, na dependência química, o contrato de Ulisses costuma ser bem concreto: deixar o cartão ou o salário com alguém de confiança nos primeiros meses, apagar contatos ligados ao uso, mudar o trajeto que passa pelo lugar de sempre, não andar com o que lembra o uso e combinar com a família o que fazer se a fissura apertar. A fissura costuma vir em ondas: sobe, chega a um pico e baixa. Nas terapias baseadas em aceitação e atenção plena, a ideia é aprender a observar essa onda sem obedecer a ela.

A corda mais forte tem remadores

Ulisses não se amarrou sozinho, e isso também tem respaldo científico. Uma meta-análise em rede publicada em 2018 na PLOS Medicine reuniu 50 ensaios clínicos, com cerca de 6.900 participantes com dependência de cocaína ou anfetaminas. Entre 12 abordagens psicossociais, só uma aumentou o número de pessoas em abstinência em relação ao tratamento habitual, tanto no fim do tratamento quanto no seguimento mais longo: o manejo de contingências (recompensas combinadas para cada exame negativo) junto com a abordagem de reforço comunitário, que reorganiza trabalho, família e lazer para que a vida sem a droga fique mais interessante do que o canto.

Em outras palavras: a tripulação e o barco importam tanto quanto a corda. No Brasil, além do acompanhamento em consultório, a rede pública conta com os CAPS AD, os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.

Na psiquiatria, o mastro tem nome

A expressão “contrato de Ulisses” aparece na ética médica e na psiquiatria para descrever acordos feitos num período estável sobre como a pessoa quer ser cuidada numa crise futura. É a mesma lógica da Odisseia: decidir com clareza hoje para proteger quem você será num momento em que essa clareza pode faltar.

No consultório, isso costuma tomar a forma de um plano de crise ou de um plano de prevenção de recaída, na linha do modelo proposto pelo psicólogo Alan Marlatt, construído junto com o paciente: quais gatilhos e sinais indicam que algo está começando, quem deve ser avisado, o que fazer primeiro e o que a pessoa não quer que aconteça. É uma forma de respeitar a autonomia, não de retirá-la.

Como amarrar o seu mastro

  1. Mapeie as sereias. Anote, por uma ou duas semanas, quando a vontade aparece: onde você estava, com quem, a que horas, como se sentia e se havia dinheiro ou tempo livre por perto.
  2. Decida antes, não na hora. Escolha um momento calmo para definir a regra: o que evitar, o que fazer quando bater a vontade e a quem avisar.
  3. Torne difícil desfazer. Senha ou cartão com outra pessoa, contatos apagados, trajeto novo, carregador fora do quarto. Quanto mais trabalho der para soltar a corda, mais ela segura.
  4. Chame os remadores. Família, amigos, grupo de apoio, equipe de saúde. Conte o que você combinou consigo e peça ajuda para manter.

Se a corda sempre escorrega, talvez a questão não seja força de vontade. Quando o uso de crack, cocaína, álcool, apostas, celular ou qualquer outro hábito começa a atrapalhar o sono, o trabalho, o dinheiro ou as relações, e as tentativas de controle não se sustentam, vale buscar tratamento. Dependência é uma condição de saúde, e muitas vezes vem acompanhada de ansiedade, depressão, TDAH ou outro quadro que também precisa de cuidado.

Perguntas frequentes

O que é o contrato de Ulisses?

É o nome dado a um acordo feito num momento de clareza para valer num momento futuro em que a pessoa pode não conseguir decidir bem. Na psiquiatria, a ideia aparece nos planos de crise e nas diretivas antecipadas, em que o paciente registra como quer ser cuidado se os sintomas voltarem.

Bloquear a internet do celular melhora a saúde mental?

Num estudo de 2025, bloquear a internet móvel por duas semanas melhorou saúde mental, bem-estar e atenção em média, e cerca de 9 em cada 10 participantes melhoraram em pelo menos um desses pontos. Mas manter o bloqueio foi difícil, e o resultado vale para o grupo estudado, não é garantia individual.

O que são gatilhos na dependência química?

São pessoas, lugares, horários, objetos, dinheiro na mão ou emoções que o cérebro associou ao uso e que, sozinhos, já despertam a vontade. Identificar os próprios gatilhos é um dos primeiros passos de um plano de prevenção de recaída.

Por que a recaída pode acontecer depois de meses sem usar?

Num estudo com pessoas em abstinência de cocaína, a resposta do cérebro às pistas ligadas à droga foi maior entre o primeiro e o sexto mês sem usar, mesmo com a vontade relatada já mais baixa. Por isso o cuidado e as estratégias de proteção precisam durar meses, e não só as primeiras semanas.

Quando procurar um psiquiatra por causa do celular, das apostas ou do uso de substâncias?

Quando o uso passa a causar prejuízo real, como perda de sono, dívidas, queda no rendimento ou conflitos, e você já tentou reduzir sem conseguir. A consulta ajuda a entender o que mantém o ciclo, tratar quadros associados, como ansiedade, depressão ou TDAH, e montar um plano de prevenção de recaída que funcione para você.

Ulisses não confiou na força de vontade. Confiou na corda.


Dr. Igor Ferreira, médico psiquiatra. CRM-GO 26457 · RQE 18449. Atendimento em Goiânia (Setor Sul) e online. Horários sob agendamento pelo WhatsApp ou Doctoralia: saiba como agendar.

As informações deste texto são educativas e não substituem uma consulta médica.

Referências

  • Homero. Odisseia, canto XII. Tradução inglesa de Samuel Butler (1900). Project Gutenberg: gutenberg.org/ebooks/1727.
  • Castelo N, Kushlev K, Ward AF, Esterman M, Reiner PB. Blocking mobile internet on smartphones improves sustained attention, mental health, and subjective well-being. PNAS Nexus. 2025;4(2):pgaf017. doi:10.1093/pnasnexus/pgaf017.
  • Childress AR, Mozley PD, McElgin W, Fitzgerald J, Reivich M, O’Brien CP. Limbic activation during cue-induced cocaine craving. American Journal of Psychiatry. 1999;156(1):11-18. doi:10.1176/ajp.156.1.11.
  • Parvaz MA, Moeller SJ, Goldstein RZ. Incubation of cue-induced craving in adults addicted to cocaine measured by electroencephalography. JAMA Psychiatry. 2016;73(11):1127-1134. doi:10.1001/jamapsychiatry.2016.2181.
  • De Crescenzo F, Ciabattini M, D’Alò GL, et al. Comparative efficacy and acceptability of psychosocial interventions for individuals with cocaine and amphetamine addiction: a systematic review and network meta-analysis. PLOS Medicine. 2018;15(12):e1002715. doi:10.1371/journal.pmed.1002715.
  • Witkiewitz K, Marlatt GA. Relapse prevention for alcohol and drug problems: that was Zen, this is Tao. American Psychologist. 2004;59(4):224-235. doi:10.1037/0003-066X.59.4.224.
  • Elster J. Ulysses and the Sirens: Studies in Rationality and Irrationality. Cambridge University Press; 1979.

← Voltar ao blog


Agende sua consulta